segunda-feira, 28 de maio de 2012

A Verdadeira história de Dino Kraspedon e Aladino Félix

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

O polêmico Aladino Félix, que também assinava livros como
Dino Kraspedon, Sábado Dinotos e Dunatos Menorá
Aladino Félix é um dos nomes mais polêmicos da Ufologia Brasileira. Félix escreveu livros como Contato com os Discos Voadores, um clássico da literatura ufológica mundial, Mensagens aos Judeus, o Hebreu e A Antiguidade dos Discos Voadores, que se antecipava a Erich von Daniken. E para completar, o autor líder messiânico e acusado de terrorismo, preso pelo Departamento de Ordem Política e Social(DOPS) e demais órgãos de repressão política do regime militar(1964-1985)- Aladino Félix foi torturado conseguiu escapar e acabou recapturado. Depois de cumprir pena, desapareceu. A meteórica trajetória de Félix é em si mesma um mistério, ele foi responsável por cerca da metade de todos os principais atentados políticos ocorridos em São Paulo em 1968. Tais atos acabaram errônea e convenientemente atribuídos a esquerda, e contribuíram de sobremaneira para disseminar o clima de agitação e desordem que abriria o leque de justificativas para o fechamento total do regime militar, por meio da decretação do Ato Institucional numero 5 – o famigerado AI-5 em dezembro daquele ano. Ligado a altos escalões do governo, Félix insurgiu-se como o primeiro a alertar que um “golpe dentro do golpe” estava em vias de ser implantado, e a denunciar, junto com seus adeptos, as torturas a que foram submetidos nas dependências do Departamento Estadual de Investigações Criminais(DEIC).

Durante cinco anos, desde novembro de 1952, Aladino Félix teria conservado em segredo o contato que alegava ter mantido com os tripulantes de um disco voador na Estrada de Angatuba, interior de São Paul, bem como a visita que recebera do comandante deste. Os visitantes que dizia ter encontrado eram altos, tinham suas cabeças raspadas e usavam macacões colantes. Pelo que lhe fora explicado pelo comandante da nave – disse proceder de dois satélites de Júpiter, Io e Ganímedes – as naves deviam sua alta velocidade ao vácuo que formavam com o bombardeio de raios catódicos em toda a parte externa, formando um túnel. Tendo o vácuo sempre a sua frente, o disco podia movimentar-se sem qualquer atrito, em qualquer velocidade e em todas as direções.

O comandante ainda teria postulado que o Sol e os planetas se sustentam no espaço de forma contrária a que a ciência terrena afirma. O Sol não atrairia os planetas, mas provocaria uma repulsão. “ Se até então a ciência não encontrara a solução para o problema dos três corpos, brevemente haveria maior dificuldade com a inclusão de um outro sol em nosso sistema”, dizia Félix, aliás, segundo ele, essa seria uma das razões que atrairia naves extraterrestres aqui, além de nos prevenir contra os perigos a que estávamos expostos com o advento da era atômica. O comandante dizia que todos os planetas teriam suas órbitas modificadas. A Terra por exemplo, sob a pressão de dois Sóis, iria ocupar a zona onde hoje se encontra o cinturão de asteroides, entre Marte e Júpiter. 

Contato com os Discos Voadores aborda assuntos como astronavegação e a vida em outros mundos. Lança novos conceitos sobre Deus, matéria e energia. Alerta-nos sobre o perigo atômico e discute os erros cometidos por nossas ciências. Os visitantes espaciais se identificaram como habitantes de dois satélites jupiterianos, chamados Io e Ganimedes. Quanto à aparência física, Dino descreve o comandante como um homem alto, corpo esguio de simetria perfeita e com olhos grandes e azuis.

Em seu livro, Dino afirma, entre outras coisas, que há um planeta em nosso sistema solar, conhecido como SS433, que, segundo os extraterrestres, está vindo de encontro à Terra. “Quando chegar à altura do Sol, irá se incandescer”, garantiu. Como os corpos se repelem pela luz, todos os planetas serão afastados de suas órbitas. “Com isso, nosso ano passará a ter 1000 dias”, finalizou.


Foi após esses encontros que o senhor escreveu o livro?
DINO – Sim, mas só fui escrevê-lo em 1955. Nesta época, o comandante veio novamente à minha casa. Só que a razão da visita era trazer uma profecia que deveria ser incluída no livro. Esta profecia previa um trágico fim para a humanidade: “De todo será esvaziada a Terra e de todo será saqueada, porque o Senhor anunciou esta palavra: a maldição consome a Terra e os que habitam nela serão desolados. Por isso, serão queimados seus moradores e poucos homens restarão. Os fundamentos da Terra tremem. De todo será quebrantada a Terra, de todo se romperá a Terra e de todo se moverá a Terra. De todo vacilará a Terra como o ébrio e será movida e removida como uma choça da noite”.


Para o senhor, o que quer dizer esta profecia?
DINO – Bem, para eu entender a profecia, o comandante precisou fazer um desenho no meu caderno (que está reproduzido na página 47 do livro). Esse desenho mostra dois sóis... Ele me explicou que – ao contrário do que explica a nossa física clássica – os corpos se repelem pela luz. Explica também que todos os corpos têm luz, mas nós não temos capacidade de perceber isso. A luz é uma força que repele outros corpos. Assim, os astros se movem e não se chocam uns com os outros. Eles se repelem mutuamente. Esse é um fato que os astrônomos não dão nenhum valor... Mas voltando à profecia, ela diz respeito a um novo corpo celeste que iria invadir o nosso sistema e comprometer a vida na Terra.

De que forma esse astro pode nos prejudicar?
DINO – O nosso sol repele naturalmente a Terra. Segundo as palavras do comandante, virá um outro sol, que também a repelirá. Essa repelência afastará todos os corpos do Sistema Solar, de forma que o planeta Plutão será jogado fora do sistema. A Terra também será afastada, indo até a região espacial dos planetoides, perto de Marte. Ao chegar nesse ponto, começará a fazer o movimento de translação em torno dos dois sóis existentes. Porém – como disse o comandante – para chegar até a região dos planetoides, nosso planeta levará aproximadamente seis ou sete dias.
Nesse período ela tremerá, causando um grande cataclismo. Este sol será detectado pelos cientistas ainda antes do fim do século (lembrar que a entrevista foi feita em 1996). Desta forma, como diz a profecia, a Terra tremerá como um ébrio... infelizmente, com isso, dois terços da humanidade serão extintos.

E foi por isso que o senhor escreveu o livro?
DINO – Sim, por todos os motivos. Foi ele quem me pediu para escrever. Apenas cumpri uma missão... e foi o único livro que escrevi na minha vida. Várias pessoas leram a obra e gostaram muito. Em 1957, alguém levou o livro para a Rússia e, em março do mesmo ano, a Academia de Ciências da União Soviética enviou uma carta para a editora no Brasil. Então, como naquela época havia muita repressão, o Departamento de Ordem Política e Social do governo controlava tudo, principalmente o que vinha da Rússia [risadas]. O pessoal tinha horror a comunistas. O departamento pegou a carta dos russos, abriu-a e foi até a editora tirar satisfações.


Alguns fatos sobre ele

O trabalho de Cláudio Suenaga, 1968, A História Que Tentaram Apagar traz revelações surpreendentes sobre a figura de Aladino Félix e levanta a suspeita de que a sua participação na história daquele conturbado período foi subestimada pelo descaso ou preconceito de nossos historiadores. As informações a seu respeito se resumem a rotulá-lo de louco ou lhe atribuir um papel secundário.

Há muitas evidências de que Aladino tinha contatos com altos escalões do Regime Militar e é provável que acreditasse servir-se deles no seu projeto de tomada do poder. Pode ter sido um inocente útil que acreditava no apoio de alguns militares aos seus planos, ou também um bode expiatório utilizado pob eles para deflagrar a caça às bruxas. Para o pessoal da esquerda, ele não passava de um simples informante ou agente provocador. O Dr. Walter Bühler declarou que Aladino havia sido treinado pela CIA, em Chicago, de onde, “por uma razão qualquer, foi desligado”. As evidências de suas ligações com autoridades militares e as suspeitas de que poderia ter agido cumprindo ordem deles nunca foram investigadas a fundo. Isto é compreensível partindo de quem estava ligado ao regime militar; só não consigo entender o desinteresse dos historiadores em geral, que poderiam talvez levantar fatos inéditos de nossa História. As autoridades sempre negaram qualquer ligação com Aladino e apenas diziam que recebiam dele informações e denúncias, de caráter grave, sobre a situação do país. Mas, na época, falava-se que o terrorismo de grupos paramilitares de direita não começara nos anos 60, mas décadas atrás, nos anos 40 e 50. Aladino também fez esta denúncia, mas tido na conta de “louco”, “místico” e “visionário”, ninguém acreditou que por trás dele pudesse ocultar-se uma “gigantesca rede conspiratória que ao longo dos anos assumiu o controle de todos os aspectos da vida da nação”.

Diz Cláudio, em sua tese: “Os problemas com a Igreja explicam porque Aladino não foi nem mesmo citado no livro “Brasil: nunca mais”, projeto conduzido e coordenado pelos arcebispos da Arquidiocese de São Paulo. A omissão é tanto mais grave se levarmos em conta que Aladino e seus seguidores foram praticamente os primeiros “terroristas” torturados pelo aparato repressivo que se solidificava. Apenas à página 116 deste livro, numa tabela mostrando a atuação de diversos grupos de esquerda, vemos que uma “organização sem identificação” atuou em 1968. Muito pouco para um movimento responsável por quase metade dos atentados cometidos naquele ano em São Paulo.


Provas de que Aladino Félix era Dino Kraspedon

O bancário aposentado Oswaldo Pedrosa, já falecido, assumiu
a identidade de Dino Kraspedon, inventada por Aladino Félix
Ao assumir a identidade de Dino Kraspedon, o bancário aposentado Oswaldo Pedrosa necessariamente teria também de alterar sua personalidade em todos os aspectos que esta comportava. Mas não foi o que fez, entretanto [Veja UFO 106]. No intuito de restabelecer a verdade histórica sobre esse curioso personagem da Ufologia Brasileira, apresentamos provas incontestáveis de que Pedrosa não é nem nunca foi o autor de Contato com os Discos Voadores, como alardeou em congressos de Ufologia pelo Brasil afora, que freqüentou a partir dos anos 90, já octogenário. Todos aqueles que se acostumaram à falsa certeza de que o bancário era de fato Kraspedon talvez estivessem convencidos pelo seu singelo discurso ou influenciados pela ação de seus arautos, também iludidos pelo imponderado consenso que se formou a respeito.

Usurpação do nome — Um dos argumentos mais capciosos e recorrentes dos ufólogos que defendem o bancário é o de que Dino Kraspedon e Sábado Dinotos seriam personagens distintos. Para eles, Dino seria o bancário e contatado, e Sábado seria Aladino Félix, o líder messiânico e terrorista. Nada mais falso. Como se já não bastassem os testemunhos de todos os que conheceram Félix, incluindo sua família, há garantias documentais de que o autor de Contato com os Discos Voadores era de fato Aladino Félix, apenas e tão somente ele. Uma prova é a edição de 24 de agosto de 1968 do jornal Última Hora, de São Paulo [Número 5.090, ano XVII], que traz nas páginas 08 e 09 uma reportagem cujo título principal é Os Caminhos do Terror, e na página 10, um perfil do contatado e terrorista, sob o título O Incrível Aladino ou Sábado Dinotos ou Dino Casperton. Embora o jornal tenha errado na grafia, fica patente que na época a própria imprensa já reconhecia Dino e Sábado como sendo a mesma pessoa, ou seja, Aladino Félix.

A Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, instituição que armazena os registros de todos os escritores nacionais, enviou a este autor, em 24 de novembro de 1995, um documento assinado por Anna Naldi, chefe da Divisão de Informação Documental, e referendado pela pesquisadora Cássia Krebs, confirmando que Dino Kraspedon e Sábado Dinotos eram a mesma pessoa, ou seja, Aladino Félix. Em sua lista, constam como sendo de Félix as obras Bíblia Sagrada [Pentateuco], Contato com os Discos Voadores, O Hebreu: O Libertador de Israel, Mensagem aos Judeus: O Nascimento do Messias e A Órbita da Terra e a Gravitação.

Poucos meses antes de falecer, em 13 junho de 1996, este autor manteve intensa correspondência com o médico e pioneiro da Ufologia Brasileira Walter Karl Bühler, fundador e presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Discos Voadores (SBEDV), que estabelecera vários encontros com Félix na década de 50. Bühler citou Félix inúmeras vezes nos boletins da SBEDV, sempre fazendo questão de relacionar o pseudônimo Dino Kraspedon ao verdadeiro nome do mencionado, Aladino Félix. Como que antevendo a usurpação do nome, em seu Livro Branco dos Discos Voadores [Editora Vozes, 1985], Bühler ainda fez questão de declinar em várias passagens o verdadeiro nome de Kraspedon, isto é, Félix.

Por fim, durante uma visita que fiz ao veterano ufólogo carioca Fernando Cleto Nunes Pereira [Veja seção Diálogo Aberto de 132], em companhia do ufólogo espanhol e também consultor da Revista UFO Pablo Villarrubia Mauso, em 1996, aproveitei para mostrar-lhe a edição de 06 de março de 1968 do Jornal da Tarde com a matéria O Golpe Fantástico, que traz uma foto de Félix, que já fora hóspede em sua residência. Ao vê-la, Cleto logo reconheceu o velho colega. Acima da foto, o pioneiro escreveu: “Acredito que este é o Dino Kraspedon que conheci na década de 50”. O ufólogo decano Fernando Grossmann confirmou igualmente que Dino Kraspedon era de fato Aladino Félix.

Explicação necessária — Mas os leitores certamente devem estar se perguntando por que só agora, passados mais de 10 anos, é que resolvi publicar estes fatos. Em consideração aos que prezam pelo silogismo, explico. Antes, cabe dizer que este texto é apenas uma breve síntese de um extenso trabalho que compôs pouco mais da metade de minha tese de mestrado, intitulada A Dialética do Real e do Imaginário: Uma Proposta de Interpretação do Fenômeno OVNI, desenvolvida entre os anos de 1994 e 1998. O trabalho contou com a orientação do antropólogo Benedito Miguel Angelo Perrini Gil, foi apresentado junto ao Departamento de História da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Assis, e defendido em 22 de março de 1999. Ou seja, no âmbito acadêmico, a verdade sobre Dino Kraspedon é fartamente conhecida e está acessível a qualquer pessoa que se predisponha a consultar o banco de teses daquela universidade.

Mas se até agora eu vinha adotando uma postura de resignação e protelando a publicação destes dados, isso se deveu a uma série de fatores que fugiram ao meu controle. Inúmeros problemas pessoais, inclusive de saúde, tiraram-me de circulação por anos seguidos. Compromissos e projetos mais urgentes também me ocuparam integralmente. Foram anos pesquisando e escrevendo sobre outros assuntos até que dissesse a mim mesmo que conseguiria fazer o que deveria sobre esse tema. Mesmo assim, ainda antes de ter concluído a referida tese, jamais me neguei a enviar informações a respeito aos pesquisadores sérios que me têm solicitado.

A maior preocupação, porém, não era com o desconforto de reviver episódios pouco agradáveis da história de nosso país e da Ufologia Brasileira, remexendo suas piores memórias. Mas o desafio de encontrar um tom apropriado para abordar o caso, sem ferir suscetibilidades ou instar conflitos desnecessários, ainda que em certo grau isso fosse absolutamente inevitável. Tampouco me faltaram vontade e coragem para tanto, ainda que sob a ameaça de retaliações em forma de ataques via imprensa ufológica. O que determinou meu silêncio foi, principalmente, a intimidação velada que sofri dos detentores do poder econômico, que me acenavam com infaustos processos judiciais, e o pedido de Raul Félix, filho de Aladino, para que aguardasse pacientemente o desfecho da ação que movia contra os usurpadores do nome e da obra de seu pai. Assim o fiz.

A verdade acima de tudo — Nesse período, entretanto, confesso que não foram pequenas as decepções diante da indiferença, da incompreensão e da veleidade renitente de alguns ufólogos e pesquisadores ilustres em relação às descobertas que apresento neste box e no artigo principal. Em compensação, também foram muitas as satisfações que tive, mais tarde, com o apoio e a colaboração que passaram a prestar alguns colaboradores, igualmente ilustres, entre os quais estão Mauso, Grossmann e Bühler, já citados, e ainda Antônio Manoel Pinto, Lobo Câmara, Ari Nicácio Moreira.

Embora a mentira sobre a identidade de Dino Kraspedon já tenha se consagrado, temos que fazer com que a verdade seja ouvida, principalmente para que sirva de estímulo e força impulsionadora para todos aqueles que têm coragem e a necessária força de vontade para prosseguir lutando por ela. Foi estimulado por tal propósito que fiz intensa pesquisa sobre Aladino Félix, resultando nas descobertas aqui apresentadas e no livro que acabo de lançar pela coleção Biblioteca UFO, Contatados. Mover céus e terras para localizar documentos históricos, testemunhas idôneas e informações fidedignas, que nos ajudassem a desvelar os segredos que se ocultavam sob uma crosta de 30 anos de silêncio, compensou.

Fontes: 
O livro sobre sobre Aladino Felix foi escrito pelo historiador Claudio Tsuyoshi Suenaga que pesquisou os arquivos da ditadura em São Paulo.


4 comentários:

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  2. Germânia, teríamos o maior prazer em publicar sua versão dos fatos.
    Basta nos enviar a história por e-mail, que publicaremos com os devidos créditos.

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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