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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Este sim é O CARA!

Odilon de Oliveira, de 56 anos, estende o colchonete no piso frio da sala, puxa o edredom e prepara-se para dormir ali mesmo, no chão, sob a vigilância de sete agentes federais fortemente armados. Oliveira é juiz federal em Ponta Porã , cidade de Mato Grosso do Sul na fronteira com o Paraguai e, jurado de morte pelo crime organizado, está morando no fórum da cidade. Só sai quando extremamente necessário, sob forte escolta. Em um ano, o juiz condenou 114 traficantes a penas, somadas, de 919 anos e 6 meses de cadeia, e ainda confiscou seus bens. Como os que pôs atrás das grades, ele perdeu a liberdade. 'A única diferença é que tenho a chave da minha prisão.' 

Traficantes brasileiros que agem no Paraguai se dispõem a pagar US$ 300 mil para vê-lo morto. Desde junho do ano passado, quando o juiz assumiu a vara de Ponta Porã, porta de entrada da cocaína e da maconha distribuídas em grande parte do País, as organizações criminosas tiveram muitas baixas.Nos últimos 12 meses, sua vara foi a que mais condenou traficantes no País. 

Oliveira confiscou ainda 12 fazendas, num total de 12.832 hectares , 3 mansões - uma, em Ponta Porã , avaliada em R$ 5,8 milhões - 3 apartamentos, 3 casas, dezenas de veículos e 3 aviões, tudo comprado com dinheiro das drogas. Por meio de telefonemas, cartas anônimas e avisos mandados por presos, Oliveira soube que estavam dispostos a comprar sua morte.

'Os agentes descobriram planos para me matar, inicialmente com oferta de US$100 mil.' No dia 26 de junho, o jornal paraguaio Lá Nación informou que a cotação do juiz no mercado do crime encomendado havia subido para US$ 300 mil. 'Estou valorizado', brincou. Ele recebeu um carro com blindagem para tiros de fuzil AR-15 e passou a andar escoltado. 

Para preservar a família, mudou-se para o quartel do Exército e em seguida para um hotel. Há duas semanas, decidiu transformar o prédio do Fórum Federal em casa. 'No hotel, a escolta chamava muito a atenção e dava despesa para a PF.' É o único caso de juiz que vive confinado no Brasil. A sala de despachos de Oliveira virou quarto de dormir. No armário de madeira, antes abarrotado de processos, estão colchonete, roupas de cama e objetos de uso pessoal. O banheiro privativo ganhou chuveiro. A família - mulher, filho e duas filhas, que ia mudar para Ponta Porã, teve de continuar em Campo Grande. O juiz só vai para casa a cada 15 dias, com seguranças. Oliveira teve de abrir mão dos restaurantes e almoça um marmitex, comprado em locais estratégicos, porque o juiz já foi ameaçado de envenenamento. O jantar é feito ali mesmo. Entre um processo e outro, toma um suco ou come uma fruta. 'Sozinho, não me arrisco a sair nem na calçada...'

Uma sala de audiências virou dormitório, com três beliches e televisão. Quando o juiz precisa cortar o cabelo, veste colete à prova de bala e sai com a escolta. 'Estou aqui há um ano e nem conheço a cidade.' Na última ida a um shopping, foi abordado por um traficante. Os agentes tiveram de intervir. Hora extra. Azar do tráfico que o juiz tenha de ficar recluso. Acostumado a deitar cedo e levantar de madrugada, ele preenche o tempo com trabalho. De seu 'bunker', auxiliado por funcionários que trabalham até alta noite, vai disparando sentenças. Como a que condenou o mega traficante Erineu Domingos Soligo, o Pingo, a 26 anos e 4 meses de reclusão, mais multa de R$ 285 mil e o confisco de R$ 2,4 milhões resultantes de lavagem de dinheiro, além da perda de duas fazendas, dois terrenos e todo o gado. Carlos Pavão Espíndola foi condenado a 10 anos de prisão e multa de R$ 28,6 mil. Os irmãos , condenados respectivamente a 21 anos de reclusão e multa de R$78,5 mil e 16 anos de reclusão, mais multa de R$56 mil, perderam três fazendas. O mega traficante Carlos Alberto da Silva Duro pegou 11 anos, multa de R$82,3 mil e perdeu R$ 733 mil, três terrenos e uma caminhonete. Aldo José Marques Brandão pegou 27 anos, mais multa de R$ 272 mil, e teve confiscados R$ 875 mil e uma fazenda.

Doze réus foram extraditados do Paraguai a pedido do juiz, inclusive o 'rei da soja' no país vizinho, Odacir Antonio Dametto, e Sandro Mendonça do Nascimento, braço direito do traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar. 'As autoridades paraguaias passaram a colaborar porque estão vendo os criminosos serem condenados.' O juiz não se intimida com as ameaças e não se rende a apelos da família, que quer vê-lo longe desse barril de pólvora. Ele é titular de uma vara em Campo Grande e poderia ser transferido, mas acha 'dever de ofício' enfrentar o narcotráfico. 'Quem traz mais danos à sociedade é mega traficante. Não posso ignorar isso e prender só mulas (pequenos traficantes) em troca de dormir tranqüilo e andar sem segurança.' 

Veja no vídeo, um dos blocos do programa Profissão Repórter:




terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Tráfico impede marcação de casas em Nova Friburgo

24.01 - Nova Friburgo/RJ:  As casas a serem demolidas foram numeradas pela Defesa Civil. Foto: Wilson Dias/Agência Brasil
Intimidação é feita por traficantes que não querem ter suas
casas marcadas para demolição

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil
Agentes da Defesa Civil de Nova Friburgo se queixaram, na segunda-feira (24), que estão enfrentando resistência do tráfico de drogas na hora de marcar as casas da Comunidade Alto do Floresta, em Conselheiro Paulino, para demolição. No mesmo dia, duas moradias foram demolidas, mas agentes que preferiram não se identificar contaram que homens armados os pressionaram para que não marcassem as residências de pessoas ligadas ao tráfico, independentemente do risco. A Defesa Civil e a Coordenadoria de Trabalho Social da Casa Civil do Estado, porém, não confirmaram a intimidação.

Até ontem à noite, foram resgatados 820 mortos e 513 pessoas ainda estavam desaparecidas em consequência da tragédia, que afetou, além de Friburgo, Teresópolis, Petrópolis, Bom Jardim, Sumidouro e São José do Vale do Rio Preto.

A Prefeitura de Friburgo vai disponibilizar a mudança dos moradores e os objetos em estado de uso serão levados a uma igreja da região.

Aluguel Social

Depois de perder casa e parentes e viver de forma improvisada em abrigos, moradores de Nova Friburgo afetados pelas chuvas que receberão o aluguel social começam a enfrentar outro problema: a falta de imóveis na região. O benefício está previsto para primeira a quinzena de fevereiro, mas, de sete imobiliárias na cidade, apenas três oferecem moradias - mesmo assim, com poucas opções de aluguel até R$ 500, valor do benefício.

Devido ao aumento da procura, algumas administradoras colocaram cartazes nas portas avisando que não há mais unidades para alugar. É o caso da Super Casa, em Conselheiro Paulino, e Folly Bohrer, no centro. Na primeira, cinco imóveis foram emprestados pelos donos para parentes desabrigados.

Segundo Gustavo Cabral, da Pereira Imóveis, também no centro, mais de 40 pessoas procuram a loja por dia. Mas o único imóvel vago fica em Vila América, área considerada de risco. "A procura está grande mas não temos como atender. Não podemos alugar imóvel em área de risco", explica. A imobiliária Krikor perdeu dez apartamentos com as chuvas. Os comerciantes Valtair Gonçalves, 52, e Amélia Andrade, 52, procuram apartamento. Perderam o restaurante, e a casa de dois andares foi interditada. Estão com os dois filhos na casa de amigos. Funcionária do casal, a cozinheira Adenilsa da Silva, 43, desempregada e com quatro filhos, ela teme não encontrar um imóvel. "Minha casa foi interditada", lamentou.

Cadastro de quem está em casa de amigos

Na imobiliária Correta, o aluguel de um apartamento de dois quartos em Conselheiro Paulino varia entre R$ 650 e R$ 900. Segundo a Secretaria Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos, 2 mil famílias que estão em abrigos de Friburgo, Teresópolis e Petrópolis se cadastraram no Aluguel Social. Na segunda-feira, começou o cadastramento de quem está em casas de parentes e amigos.

Em Petrópolis, Teresópolis e Friburgo, foram identificados 173.039 trabalhadores com saldo na conta do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). O valor estimado possível para saque é de R$ 492 milhões. A população dos três municípios é de 633 mil habitantes.

Chuvas na região serrana

As fortes chuvas que atingiram os municípios da região serrana do Rio nos dias 11 e 12 de janeiro provocaram enchentes e inúmeros deslizamentos de terra. As cidades mais atingidas são Teresópolis, Nova Friburgo, Petrópolis, Sumidouro e São José do Vale do Rio Preto. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), choveu cerca de 300 mm em 24 horas na região.