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sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Brasil Barrou Milhares de Judeus que Fugiam do Nazismo

Em julho de 1938, o cônsul do Brasil em Budapeste (Hungria), Mário Moreira da Silva, enviou ao ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha, uma circular secreta em que informava ter recusado a concessão de vistos a 47 pessoas "declaradamente de origem semita" (judeus) que buscavam migrar para o Brasil.


Eles tentavam fugir enquanto o governo húngaro, aliado da Alemanha nazista, punha em marcha uma série de políticas antissemitas - que, seis anos depois, culminariam com o envio de meio milhão de judeus húngaros para campos de extermínio.

O cônsul em Budapeste já havia se posicionado contra a entrada de judeus no Brasil. Em ofício enviado ao ministro meses antes, ele os chamara de "assaz (muito) perniciosos" e "inassimiláveis, que só sabem trabalhar - sem o menor escrúpulo e só visando o lucro - como intermediários de negócios, nada produzindo de útil".

Não era uma posição isolada no governo. Documentos diplomáticos compilados por Maria Luiza Tucci Carneiro, professora do Departamento de História da USP, mostram que o Brasil rejeitou ao menos 16 mil pedidos de visto feitos por judeus que fugiam do Holocausto ou tentavam reconstruir suas vidas após a Segunda Guerra.

Os documentos - que estão sendo incorporados ao Arquivo Virtual Sobre Holocausto e Antissemitismo (Arqshoah) - jogam luz sobre um lado pouco conhecido da história da imigração no Brasil.


Formação étnica do Brasil.

Segundo Tucci, as recusas de visto a judeus seguiam ordens do alto escalão do governo. A partir de 1937, o Ministério das Relações Exteriores emitiu ao menos 26 circulares secretas impondo barreiras à entrada do grupo, considerado indesejável para a formação étnica do povo brasileiro numa época em que o Brasil estimulava a migração de europeus brancos e cristãos. Restrições semelhantes foram impostas a estrangeiros negros e asiáticos.

Adolf Hitler discursa para soldados em Dortmund, em 1933;
nos anos seguintes, Alemanha pôs em marcha plano
para exterminar judeus.
No caso dos judeus, porém, as barreiras afetavam um grupo que se via cada vez mais acuado por medidas discriminatórias em boa parte da Europa. Calcula-se que cerca de 6 milhões de judeus tenham sido mortos pela máquina de guerra nazista, o maior genocídio do século 20.

As regras que barravam judeus vigoraram mesmo após o Brasil declarar guerra à Alemanha e enviar soldados para a Itália, só perdendo validade no fim do governo de Eurico Gaspar Dutra, em 1950, quando os horrores do Holocausto já haviam sido amplamente difundidos.

"Os documentos derrubam o mito de que o Brasil sempre recebeu imigrantes de portas abertas e reforçam a postura colaboracionista do governo Vargas com a política antissemita da Alemanha", afirma Tucci à BBC News Brasil.

Segundo ela, o governo impunha restrições a judeus e outras minorias por meio de documentos secretos enquanto, no exterior, buscava apresentar o Brasil como um país "com projetos humanitários e salvacionistas". Uma circular que tratava do tema ordenava que a recusa de vistos a judeus deveria "ser justificada sem qualquer referência à questão étnica".

Autora de vários livros sobre o antissemitismo no Brasil, Tucci estuda os documentos desde 1995, quando o Itamaraty abriu seu acervo sobre o tema. Ela diz acreditar que os números de vistos recusados a judeus tenham sido muito superiores aos que já contabilizou.


Judeus 'subversivos'.

A primeira das circulares secretas listava uma série de regras para barrar "numerosas levas de semitas, que os governos de outras nações estão empenhados em afastar dos respectivos territórios".

A justificativa, segundo o ministério, era impedir a entrada de migrantes que buscavam, "numa inadmissível concorrência ao comércio local e ao trabalhador nacional, absorverem, parasitariamente, (...) uma parte apreciável de nossa riqueza, quando, além disso, não se entregam, também, à propaganda de ideias dissolventes e subversivas".

A circular determinava, entre outros pontos, que não fossem dados vistos a judeus, exceto nos casos em que tivessem cônjuges brasileiros, possuíssem bens no país, pretendessem viajar a turismo ou tivessem "notória expressão cultural, política e social". As mesmas restrições não se aplicavam a europeus cristãos.

Caso o consulado suspeitasse que um judeu tentava se passar por cristão para obter o visto, poderia pedir sua certidão de batismo e suspender o processo até que, "por meio de investigação, se consiga esclarecer a dúvida". Segundo a circular, as regras haviam sido elaboradas pelos ministérios das Relações Exteriores e do Trabalho e aprovadas pelo presidente Getúlio Vargas.

Família Gottlieb em 1939; grupo fugiu para o
Brasil com certidões falsas de batismo.
Na época, outros órgãos do Estado também adotavam políticas racistas. No artigo Discriminação e Intolerância: os indesejáveis na seleção do Exército brasileiro, o pesquisador do Arquivo Histórico do Exército (AHEx) Fernando da Silva Rodrigues cita normas que impediam o acesso de judeus, negros e muçulmanos às escolas que formavam os oficiais da corporação. As regras foram definidas em 1937 pelo então ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, e valeram até 1946.


Deportação de Olga Benário.

Muitos historiadores já analisaram os laços entre o governo Vargas e o regime nazista na Alemanha, quando os dois países mantinham acordos secretos para a troca de informações sobre militantes comunistas. A cooperação mais célebre envolveu a deportação pelo Brasil da judia alemã Olga Benário, cônjuge do líder comunista brasileiro Luís Carlos Prestes. Devolvida à Alemanha, ela foi presa e executada numa câmara de gás no campo de Bernburg, em 1942.

Foi só após sucessivos ataques de submarinos alemães e italianos à Marinha Mercante brasileira e sob forte pressão dos EUA que o país rompeu os laços diplomáticos com as potências do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), em 1942, unindo-se dois anos depois aos Aliados nos campos de batalha.

Os documentos do governo brasileiro indicam que a afinidade entre o governo Vargas e a Alemanha nazista ia além da oposição ao comunismo - e que muitos altos diplomatas brasileiros tinham visões antissemitas.

Tucci diz que o próprio chanceler Oswaldo Aranha, homenageado em Israel por seu papel na Assembleia Geral da ONU que resultou na criação do país, em 1947, expôs ideias antissemitas e concebeu parte das ordens secretas que barravam a entrada de judeus no Brasil.

Judeus identificados por faixas nos braços em Varsóvia,
Polônia, em 1941.
Em carta enviada em 1938 ao então interventor federal em São Paulo, Adhemar de Barros, Aranha alertava sobre os riscos da imigração de judeus para o Estado.

"O israelita, por tendência milenar, é radicalmente avesso à agricultura e não se identifica com outras raças e outros credos. Isolado, há ainda a possibilidade de vir a ser assimilado pelo meio que o recebe (...). Em massa, constituiria, porém, iniludível perigo para a homogeneidade futura do Brasil", escreveu o chanceler.

Aranha disse que poucos dias antes havia sido procurado por um judeu austríaco radicado no Brasil, Frederico Zausmer, que pedia a regularização migratória de outros 300 judeus residentes em São Paulo - fato que, para o chanceler, despertava "justas suspeitas da existência de um 'Getto' já em formação nessa capital".

Naquele anos, guetos eram os bairros nos países sob jugo nazista onde judeus eram obrigados a morar, e de onde foram recolhidos e enviados aos campos de extermínio.


Velhos e crianças órfãs.

Após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), muitos dos formuladores das restrições à migração de judeus permaneciam no governo brasileiro. Em 1948, o Conselho Nacional de Imigração e Colonização instruiu o Ministério das Relações Exteriores a reforçar as barreiras contra o grupo.

Uma circular orientava os consulados brasileiros a "não visar passaportes de judeus" - o que, segundo Tucci, fechou as portas para muitos velhos e crianças órfãs que haviam sobrevivido ao Holocausto e buscavam uma nova pátria.

Alma Adler, idealizadora da boneca Estrela; família
foi auxiliada pelo advogado José Mindlin para
conseguir trazer todos os integrantes para o Brasil.
Apesar das restrições, milhares de judeus conseguiram se mudar no Brasil antes e depois do Holocausto, dando origem a uma comunidade que conta hoje com 120 mil membros, segundo a Confederação Israelita do Brasil (Conib). Tucci diz que boa parte do grupo entrou no país com documentos falsos, com vistos de turistas ou passando-se por cristãos.

Foi o caso da família formada por Avraham, Frymet, Markus, Salomea, Josef e Sara Gottlieb, judeus poloneses que conseguiram vistos na embaixada brasileira em Roma com certidões falsas de batismo.

Outros contaram com a ajuda de judeus brasileiros proeminentes, como o advogado José Mindlin (1914-2010), que negociou pessoalmente a concessão de vistos com autoridades. Mindlin teve papel central na reunificação de várias famílias, como os Adler, judeus alemães.

Tucci conta que, em 1938, o comerciante Moritz Adler foi preso pelos nazistas e levado a um campo de concentração perto de Frankfurt. Mindlin foi acionado por parentes do alemão que já estavam no Brasil e conseguiu um visto para que ele deixasse o país rumo ao Brasil com a esposa, Frieda. O consulado do Brasil em Frankfurt, porém, negou os vistos para as duas filhas do casal, Tilly e Elsberg.

A mãe resolveu ficar com as crianças, e Moritz viajou sozinho. A família só voltou a ficar completa no fim de 1941, quando Mindlin obteve os vistos para as meninas. No Brasil, os Adler criaram a Estrela, até hoje uma das principais marcas nacionais de brinquedos.

Houve ainda judeus que chegaram ao país graças a diplomatas que se recusaram a cumprir as ordens restritivas. Um deles foi Luiz Martins de Souza Dantas, embaixador do Brasil na França entre 1922 e 1943, que concedeu centenas de vistos a judeus sem informar ao governo a origem étnica dos requerentes.

Uma das famílias salvas por Dantas foi a da pintora tcheca Lise Forell, que em 1940 embarcou no navio Alsina rumo ao Brasil com os pais, avós maternos e um tio. Forell teve uma carreira de sucesso no Brasil, expondo obras no Museu de Arte de São Paulo (Masp) e em várias galerias.

O embaixador Souza Dantas, ao centro, com
Oswaldo Aranha (esq.) e Getúlio Vargas (dir.).
Por causa da insubordinação de Dantas, Vargas instaurou um processo administrativo contra o embaixador, que passou 14 meses detido na Alemanha após tropas nazistas invadirem a embaixada brasileira, em 1942. Em 2003, ele foi reconhecido como um Justo entre as Nações pelo Yad Vashem (Museu do Holocausto), em Jerusalém.

Questionado pela BBC, o Itamaraty afirmou por meio de sua assessoria de imprensa que as políticas migratórias da época eram elaboradas pelo Ministério da Justiça e que os diplomatas apenas as executavam.

Neto e autor de uma biografia sobre Oswaldo Aranha, Pedro Corrêa do Lago foi procurado por intermédio de sua editora, mas não respondeu.


Ressurgimento do antissemitismo.

Tucci diz que conhecer a postura do Brasil em relação a judeus que fugiam do nazismo tem grande valia num momento em que o mundo volta a debater formas de lidar com grandes levas de migrantes e refugiados.

"Temos aqui um espelho muito interessante para repensar uma série de políticas e ações restritivas que estão sendo adotadas por vários países", afirma a professora.

Tucci afirma ainda que a discriminação dos judeus nos tempos de Vargas e Dutra serve de alerta para o "revigoramento do antissemitismo" no Brasil e no mundo. "O antissemitismo sempre reaparece nos momentos de crise, nas erosões do pensamento democrático, quando os mitos sobre a existência de uma grande conspiração judaica para dominar o mundo ressurgem com outras roupagens", diz a historiadora.


sexta-feira, 8 de setembro de 2017

O Mito e a Verdade sobre a INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

Nesse instante, um “povo heroico” viu o céu da pátria, às margens do Rio Ipiranga, brilhar à luz da liberdade. Os raios da “liberdade”. Parece muito poético, não?


Nosso hino nacional hoje costuma estar quase sempre associado a feitos memoráveis no futebol e no esporte em geral. É um novo papel dado a um símbolo que remete a um importantíssimo episódio de nossa história: a Proclamação da Independência. 

Sob críticas até mais frequentes que a capacidade seleção brasileira tem tido de nos anestesiar, o hino nacional - e toda a mitologia por trás do Sete de Setembro - é hoje um alvo de permanentes questionamentos. E sobre isso, parece que a comunidade intelectual está de acordo: o hino nacional brasileiro é o exemplo vivo de como não enxergar a emancipação do Brasil.

Aquele dia no começo do mês de setembro estava longe de ser referido como um momento de heroísmo. Análises históricas do contexto social daquele "Brasil" sequer apontam a participação de populares no processo de emancipação. Outros estudiosos ainda insistem em desconstruir até aqueles mínimos detalhes do conhecido cenário de um jovem imperador com uma bela espada, gritando de seu cavalo para declarar a liberdade da nação (não se iluda!).

É o roteiro perfeito de uma cena de teatro. Talvez não por acaso. Essa abordagem nunca saiu das pinturas e relatos nacionalistas. A verdadeira história passa longe de um grito na beira de um rio. E compreender o Brasil sob uma perspectiva mais adequada exige visualizar a história de forma muito mais complexa do que costuma-se pensar.

Podemos começar implodindo qualquer vestígio de sentimento patriota naquele Brasil de 1822. Éramos colônia: um território descentralizado com muito bem definidos compromissos econômicos com Portugal. 

Transferência Família Real Portuguesa para o Brasil (Autor Desconhecido).
Cada fatia daquela colônia se desenvolveu isolada por muito tempo. E como se pode perceber até hoje, costumes distintos se consolidaram em cada região. Ainda é muito mais fácil reivindicar-se pernambucano (ou carioca, ou catarinense, por exemplo...) do que brasileiro. Para Portugal não era interessante conectar seus domínios coloniais, isolá-los era uma forma de enfraquecer qualquer conspiração. 

Tiramos daí que a nação brasileira não nasceu com a independência. Por outro lado, talvez essa data seja o marco do início da busca que ainda vivenciamos nos tempos atuais. Afinal: o que é ser brasileiro? Não espere que este texto responda. Com muita pesquisa, e um bom faro, um historiador de sucesso conseguirá dizer justamente o contrário.

O processo de independência celebrado no Sete de Setembro não começou naquele Mês, ou mesmo naquele ano. Foi uma sucessão de elementos que tomou força a partir da chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil em 1808.

Em razão de desacordos diplomáticos com a temida França Napoleônica. O Reino de Portugal, sob o comando de Dom João IV, se viu obrigado a transferir sua corte para o Brasil, abandonando Lisboa e fixando comando no Rio de Janeiro. Era o começo do fim do Brasil Colônia. 

Em pouquíssimo tempo, o imenso Brasil, outrora fragmentado, foi liberado do Pacto Colonial, passando a interagir comercialmente com outras potências europeias. O Brasil passava a ser autônomo, e pela primeira vez começava a usufruir de seus ganhos (antes recolhidos por Lisboa): Dom João IV iniciou modificações estruturais de caráter urbano e social. O que antes era um mero ponto de exploração mercantil, pouco a pouco passou a receber desde obras de transporte e saneamento até edifícios voltados para a arte e à intelectualidade, como bibliotecas e teatros. 

Se por um lado a maior parte das mudanças veio a ocorrer nas proximidades do Rio de Janeiro, onde a Família Real se instalou, a cobrança de altos impostos para sustentar a toda a corte vinha de todo o território. 

Mapa do Brasil do século XIX
Se você consegue imaginar o descontentamento das outras regiões do Brasil, pense agora no outro lado do Atlântico: Portugal, por séculos o núcleo indiscutível do Império, estava agora literalmente abandonado à própria sorte. 

Não demorou muito tempo para os portugueses protestarem o retorno da corte a Lisboa. A chamada Revolução do Porto significou para Portugal o fim do absolutismo e para o Brasil foi a catalisadora da independência. Os revoltosos intimaram o retorno de Dom João VI a Lisboa imediatamente, caso contrário, nomeariam outro Rei.

Pedro, seu filho e herdeiro do trono português, ficou no Brasil na condição de príncipe regente. Mas os portugueses queriam mais: eles não aceitavam o fim do Pacto Colonial, e pressionaram intensamente a Coroa para restabelecer a condição do Brasil. 

(Quando é dado um doce para uma criança, dificilmente ela vai querer devolver.)

Existe um filme chamado “Independência ou Morte! ” que foi produzido no período da ditadura militar, e conta a história da independência do Brasil de forma heroica e romântica, a partir de um único personagem: D. Pedro I. Essa obra ilustra bem como se buscou forjar uma identidade nacional através de memórias pouco fieis com o que realmente aconteceu. 

Queriam cultivar nos espectadores uma ideia de que a emancipação do país se deu de forma homogênea e gloriosa: o filme inteiro parece circundar a figura pessoal de Dom Pedro I. E o faz em busca de fabricar uma aura gloriosa, paternal e amiga do povo. 

Pedro parece excessivamente próximo e zeloso para com o "povo brasileiro". Ao mesmo tempo, curiosamente (ou previsivelmente) este "povo" a quem o príncipe e futuro imperador parecia se preocupar tanto, se restringia às elites locais. Essa elite, por sua vez, é vista na obra glorificando Dom Pedro. 

Isso parece uma tentativa de justificar a construção do episódio conhecido como "Dia do Fico", no qual - segundo a historiografia tradicional, muito bem representada no filme - o "herói" declara que fica no Brasil para o "bem e felicidade de todos" (este episódio representa a resistência contra as pressões de Lisboa pelo retorno do Pacto Colonial). Nesse momento o filme busca mostrar Dom Pedro consultado o "povo", andando pelas ruas e cumprimentando as pessoas. 

A "historiografia tradicional" parece estar sempre abarrotada de aspas.

Perceba o permanente uso das aspas para se referir ao "povo brasileiro" representado no filme e nos livros de História mais antigos. Essas aspas não estão ali só para apontar a falta de um sentimento de unidade nacional, elas vão além e denunciam o caráter excludente daquela sociedade. Perceba que as pessoas que o príncipe cumprimenta e consulta são todas brancas e bem vestidas. Nas ruas só há donzelas e cavalheiros. Salvo em rápidas passagens de cena, trabalhadores livres e escravos são vistos em alguma atividade. É grave perceber que o trabalho, motor central da Colônia, acaba não sendo abordado nesse filme.

A boa notícia é que ainda há muitos vestígios que ilustram como era o povo do Brasil Colônia:

Green Negroes (Debret, Jean Baptiste. 1825 - 1826. Instituto Moreira Sales).
Pari Expedition (Debret, Jean Baptiste. 1825 - 1826. Instituto Moreira Sales).
Mineiros Halting (Debret, Jean Baptiste. 1825 - 1826. Instituto Moreira Sales).
Mineiro Passing River *Debret, Jean Baptiste. 1825 - 1826. Instituto Moreira Sales)
Cadeira of Rio de Janeiro (Debret, Jean Baptiste. 1825 - 1826. Instituto Moreira Sales).
Na contra-mão dos livros saudosistas, artistas, como o francês Jean Baptiste Debret, buscaram demonstrar justamente o contrário: a diversidade étnica presente no Brasil era considerada um traço exótico e curioso, o que tornava os quadros que retratavam tal realidade caríssimos. Isso permite a quem pesquisa, entender o passado do nosso país com mais realismo.

Consultando ou não aqueles que podiam ser chamados de "povo", é sabido que Dom Pedro já se mobilizava pela centralização política do Brasil. Ainda sob a condição de príncipe, realizou diversas viagens diplomáticas para outras regiões. Foi justamente em uma dessas viagens que teria ocorrido o famoso episódio às margens do Rio Ipiranga: Pedro recebe uma carta de José Bonifácio, apontando as exigências da corte portuguesa, e a necessidade do rompimento político com Lisboa. Ali mesmo, como num ato de coragem, ele sobe em seu cavalo e grita o famoso "Independência ou Morte".


Entretanto, esse cenário é frequentemente contestado pelos historiadores. As críticas à narrativa vão desde as mais específicas, como aquelas que sugerem que o próprio Dom Pedro estaria com forte diarreia em 7 de Setembro de 1822, até às mais estruturais, que denunciam o reducionismo sobre a data. O que não se discute é que o processo de independência se deu ao longo de anos, e foi motivado por interesses econômicos das elites locais. Para a maior parte da população do Brasil, nada mudou.

O grito do Ipiranga. Pedro Américo, 1888.
Pode até ser que você não tenha visto aquele filme, mas provavelmente essa imagem você conhece. Ela está na maioria dos livros didáticos e é talvez a ilustração mais utilizada para se simbolizar o Sete de Setembro. 

O Grito do Ipiranga, de Pedro Américo, foi uma encomenda do segundo e último imperador do Brasil, Dom Pedro II, que na decadência de seu governo buscou retratar seu pai em momento heroico. Também sobram comentários sobre essa obra.

Cabe destacar que se trata de uma cena do imaginário do artista, visto que o episódio da independência nem mesmo foi publicado em jornal. E isso que pode ser o maior indício de que o "povo" (até mesmo os raríssimos alfabetizados, capazes de ler jornais) esteve completamente à margem do evento.

E nesse sentido, Pedro Américo deixa pistas em sua pintura: note que, no canto inferior esquerdo, um trabalhador rural observa com espanto a movimentação de Pedro I e seus companheiros.

Proclamação da Independência. René, François Moreaux, 1844. Esta obra, anterior à de Pedro Américo, parece ser ainda menos fiel ao que pode ter acontecido naquela data. É outra oportunidade de refletir os significados da emancipação política do Brasil.
Se Dom Pedro I estava mesmo com diarreia no dia da Independência, não podemos - nem precisamos - ter certeza. Mas quanto ao heroísmo que por tanto tempo nos foi empurrado goela abaixo, já não se pode dizer o mesmo. Hoje é raro encontrar historiador que não identifique a imagem fabricada da presença patriotismo no Brasil que se emancipou de Portugal.

Sobre essas pinturas e filmes, sobra a análise cuidadosa sobre como a História pode ser utilizada como ferramenta ideológica a fim de fabricar argumentos ou excluir personagens. 

"É possível contar um monte de mentiras dizendo somente a verdade"

Equipe de produção do artigo:

Beatriz de Miranda Brusantin
Doutora em História Social pela Universidade Estadual de Campinas
Coordenação de Produção e Pesquisa Histórica

Bruno Henrique Brito Lopes
Graduando em História pela Universidade Católica de Pernambuco
Coordenação de Redação e Edição

Camilla Fernandes Nunes
Graduanda em História pela Universidade Católica de Pernambuco
Pesquisa Histórica e Produção de texto

Fontes:

O Brasil Imperial, volume I: 1808-1831/ organização Keila Grinberg e Ricardo Salles - Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. 
SCHWARCZ, Lilia Moritz. A longa viagem da biblioteca dos reis - São Paulo: Companhia das Letras, 2002. 


terça-feira, 9 de maio de 2017

Os Gonzales - Lobisomens Entre A Realeza

No século 16, o rei da França adotou - e criou como um membro da realeza - um menino com condição rara, que se tornou sensação na Europa.

Retrato italiano de Antonietta Gonzales, filha de Petrus | Crédito: Wikimedia Commons
Por Ramon Botifa

Petrus Gonzales nasceu em 1537, nas ilhas Canárias. O menino era muito, muito peludo — tinha cabelo até na palma das mãos. A notícia logo chegou ao continente: as ilhas Canárias — que ficam no oceano Atlântico, a oeste do Marrocos  receberam esse nome pelo grande número de cães (canis) que lá foram encontrados na Antiguidade. Seria Petrus, então, uma espécie de menino-lobo?

Petrus Gonzales / Wikimedia Commons

Aos 10 anos, ele foi morar em Paris. Ninguém sabe ao certo quem deu o garoto "de presente" ao rei Henri II, conhecido por sua atração por coisas e pessoas exóticas. O fato é que sua majestade gostou do menino desde o início e garantiu que ele fosse educado como um membro privilegiado da corte. Petrus teve aulas de latim e boas maneiras, ganhou um emprego, casou-se e teve quatro filhos e três filhas, quase todos peludos como ele.

A saga dessa família incomum na Europa renascentista é o tema de The Marvelous Hairy Girls: The Gonzales Sisters and Their Worlds (As Maravilhosas Meninas Peludas: As Irmãs Gonzales e Seus Mundos, sem tradução em português), da historiadora Merry Wiesner-Hanks. "Eu estava fazendo uma pesquisa sobre outro tema quando me deparei com a imagem de Antonietta (uma das filhas de Petrus). Não consegui esquecer aquele rosto peludo e infantil. Decidi, então, investigar a fundo a história da família Gonzales. A pintura que despertou minha curiosidade virou a capa do livro", conta Merry, que é professora de história na Universidade de Wisconsin-Milwaukee (EUA).

Em sua pesquisa, a historiadora encontrou citações sobre Petrus, sua mulher e seus filhos em cartas, certidões de batismo, obituários, livros e relatórios médicos e diplomáticos dos séculos 16 e 17.


Freak show

Para Henri II, quanto mais bizarro, melhor. Em turnês que passavam por centenas de cidades e duravam anos, a corte francesa produzia espetáculos com figuras extraordinárias e seus feitos incríveis. Numa dessas viagens, em 1550, uma "vila brasileira" foi reproduzida com papagaios, árvores, macacos, ocas, redes e 50 índios de verdade. Nus, dançaram, cantaram e lançaram flechas de fogo, incendiando as ocas. A França, na época, ocupava um pedaço do Brasil, na região do Rio de JaneiroApesar da presença de atrações inusitadas como essa, a chegada de Petrus causou alvoroço na corte francesa. A princípio, ninguém sabia o que fazer com o menino. Pensaram em mandá-lo para um zoológico. Outra opção seria treiná-lo para entreter o rei, como fizeram com um grupo de anões — nesse caso, a piada era vesti-los de monarca. Para a sorte do garoto, Henri II tinha outros planos. Mais que um humano com cara de cachorro, ele queria um humano com cara de cachorro que se comportasse como um nobre. Petrus foi nomeado assistente do carregador de pão do rei, cargo que exigia um treinamento protocolar. Uma caverna foi construída para o garoto num dos parques da realeza. "Diziam que a ideia era amenizar a saudade que Petrus sentia de casa, mas claro que estavam apenas criando uma sensação para impressionar os visitantes", afirma Merry.

O primeiro registro sobre sua chegada à Europa é uma carta do representante na corte francesa do duque de Ferrara, Giulio Alvarotto, a seu mestre: "O rei está com um menino, de cerca de 10 anos, nascido nas Índias, que tem o rosto completamente coberto de cabelos desde que nasceu, exatamente como as pinturas de homens selvagens das florestas. Os pelos têm cerca de cinco dedos de comprimento. São muito finos, o que torna possível ver todos os traços de seu rosto. O pelo é louro-claro e muito delicado e fino, como o de um antílope, e tem um cheiro bom. Ele fala espanhol e se veste como uma pessoa normal. Mas o pelo o deixou frustrado para o resto da vida. Aqueles que cuidavam dele o deram para nossa majestade".

Mais tarde, Gonzales virou secretário confidencial do rei, casou-se com uma mulher chamada Catherine e teve sete filhos. Um deles, Ercole, morreu muito cedo e nada se sabe sobre sua aparência. Entre os demais, apenas outro menino, Paulo, não era peludo. As três filhas, portanto, herdaram a condição do pai.

Entre 1580 e 1590, toda a família viajou em direção ao sul da Europa. Na Suíça, foram examinados pelo médico Felix Platter, que publicou um livro com observações sobre os Gonzales: "Em Paris, havia um homem excepcionalmente peludo em todo seu corpo, muito querido do rei Henri II e que fazia parte de sua corte. As sobrancelhas e o cabelo na testa eram tão longos que ele tinha que puxá-los para poder enxergar".


Passando os genes

Em Parma, na Itália, os Gonzales caíram nas graças da família mais influente da cidade, os Farneses, que tinha papas, cardeais e generais entre seus membros. O duque Ranuccio Farnese deu um dos meninos de presente a seu irmão, o cardeal Odoardo. Enrico, já com 18 anos, posou por ordem do cardeal para o pintor Agostino Carracci. O quadro Enrico, o Cabeludo entrou para a coleção de "animais" do cardeal. Além dele, estavam na coleção Pietro, o Bobo, Amon, o Anão, dois cachorros, dois macacos e um papagaio. Antonietta foi dada de presente à marquesa de Soragna, Isabella Pallavicina. Tratada como animal de estimação, a menina era sempre levada a festas por sua "dona".

Madalena Gonzales / Wikimedia Commons
Os Gonzales eram constantemente examinados por médicos e tiveram seus retratos pintados diversas vezes. Apesar dos bons modos e dos belos vestidos de brocado que usavam, Maddalena, Francesca e Antonietta eram descritas como selvagens, monstros, bestas ou aberrações. Francesca morreu criança. Maddalena foi a única que se casou.

No século 16, eram comuns os casamentos arranjados. Paulo, Orazio e Enrico (quatro vezes) também se casaram. As esposas eram sempre meninas de famílias pobres.

No caso de Maddalena, a história foi diferente. Ela vivia em Parma, sob a guarda do duque Farnese, e também não tinha bens. Para torná-la mais atraente, o duque deu a ela um belo dote: uma casa na cidade (era costume a família da noiva oferecer bens ou dinheiro ao noivo). Escolhido pelo próprio duque, o marido se chamava Giovan Maria Avinato e cuidava dos cães de caça dos Farneses. A autora levanta a questão: "Será que Ranuccio e Odoardo Farnese escolheram um homem com essa ocupação para ser marido de Maddalena, a Cabeluda, porque eles acharam adequado ou porque acharam divertido?"

Enrico, Paulo, Orazio e Maddalena tiveram filhos. Há registros de que pelo menos dois netos de Petrus e Catherine Gonzales nasceram peludos também. Nenhuma pintura foi feita. "Aos poucos, a herança genética desapareceu", diz Merry.



Condição rara


A doença dos Gonzales é conhecida como hipertricose congênita, ou síndrome de Ambras. É causada por mutação genética e não tem cura. Petrus foi o primeiro caso registrado. Hoje há cerca de 100. O mais recente é o da tailandesa Supatra Sasuphan, que entrou para o Guinness em 2011, aos 11 anos, como a menina mais cabeluda do mundo. Sem antecedentes na família, Supatra tentou resolver o problema com depilação a laser. Mas os pelos cresceram de novo.

Fonte